Texto Super Interessante – Nov 2005.
Bárbara Axt
e Bárbara Soalheiro
Para muita gente, a questão não é “e se”, mas “e quando”
o petróleo acabar. Por ser um combustível fóssil, resultado da decomposição de
organismos, quando as reservas atuais acabarem será preciso esperar milhões de
anos até se formarem poços novos. Mas cientistas não acreditam que o óleo vá se
extinguir tão cedo. O que deve acontecer logo é o fim do estoque abundante,
algo fundamental numa sociedade como a nossa.
Nos próximos anos, a produção tende a cair – projeções
indicam queda de 3% ao ano. “Muitos geólogos dizem que 2005 é o último ano da
bonança”, escreveu Matt Savinar, especialista no tema.
Com a queda na produção, o preço do barril deve subir
assustadoramente e nossa sociedade pode entrar no que o engenheiro petrolífero
Richard Duncan chamou de “Idade da Pedra Pós-Industrial”. Duncan acredita que
vai ser impossível manter o nível de industrialização que temos hoje e que
existe um risco real de voltarmos, progressivamente, a viver como homens dos
tempos das cavernas.
Mesmo quem não aposta num cenário tão radical prevê um
encolhimento das economias. “Quando passarmos desse ponto máximo na produção,
nossa vida terá que ser reorganizada, numa escala muito menor. Não será
possível, por exemplo, viajar de carro ou de avião com a freqüência que fazemos
hoje”, diz James Kunstler, autor de The Long Emergency (“A Longa Emergência”,
sem tradução no Brasil).
E o que virá depois? Para Osvaldo Saavedra, do Núcleo de
Energias Alternativas da Universidade Federal do Maranhão, a tendência é que o
petróleo seja substituído por um conjunto de fontes de energia, já que é
impossível encontrar um substituto tão concentrado e fácil de transportar
quanto o óleo. Cada região ou indústria usará a opção que melhor lhe convier:
biomassa, energia nuclear, hidrogênio ou alternativas naturais como energia solar
e eólica. “O problema é que criar novas estruturas de produção, armazenamento e
distribuição para cada energia é um processo de décadas. E não é nada barato”,
diz o engenheiro e pesquisador da UFRJ, José Fantine. Não é à toa que muitos
cientistas nos avisam para começar as mudanças já.
Bem-vindo
à casa do futuro!
Plástico:
A maioria dos
objetos de nosso cotidiano usa plástico. Já há pesquisas com cana-de-açúcar e
milho como matérias-primas substitutas, mas ainda não é possível fazer a troca.
Outra medida será reaproveitar objetos. “Cientistas estão trabalhando em
técnicas de reciclagem, permitindo que cada vez mais plástico seja produzido
sem o uso de matéria-prima virgem”, diz o presidente da Associação Brasileira
da Indústria do Plástico, Merheg Cachum.
Pomadas:
“Em muitos produtos,
podemos substituir óleos de origem mineral por materiais de origem vegetal. Mas
ainda não existem substitutos à altura para pomadas”, diz Marcos Antonio
Correia, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da UNESP. As alternativas
testadas, como manteigas de cacau e de karité, não são tão eficientes: ficam
rançosas, não impedem a passagem de umidade para a pele e não são eficazes como
condutoras de ingredientes ativos (como no caso de assaduras ou queimaduras).
Medicamentos:
A medicina de hoje
estará totalmente comprometida. Além de ser um ingrediente-chave para vários
suprimentos de plástico usados em hospitais (cateteres, luvas, válvulas
cardíacas e seringas), petróleo é a base de alguns dos remédios mais consumidos
no mundo, como analgésicos (aspirina, por exemplo), antibióticos (muitos exigem
solventes para extrair o agente antibiótico), sedativos e xaropes contra a
tosse.
Comidas:
Você deve quase tudo
o que come às reservas do óleo. “O aumento da produção nos últimos anos não
aconteceu por um aumento repentino da luz do Sol. Essa revolução não seria
possível sem, por exemplo, os pesticidas (derivados de petróleo)”, escreveu
Dale Allen Pfeiffer no artigo Comendo Combustíveis Fósseis. Segundo os estudos
de Pfeiffer, sem esses combustíveis seriam necessárias pelo menos 3 semanas de
trabalho para produzir a dieta diária de um americano. Como isso é inviável, é
provável que o fim do petróleo nos obrigue a mudar o cardápio. “As pessoas vão
ser obrigadas a produzir sua comida perto de casa, em uma escala menor”, diz
James Kunstler.
Produtos
sintéticos: Carpetes,
cortinas, tintas acrílicas, compensados de madeira, sofás. Olhe para os
ambientes da sua casa e repare quantas coisas são feitas a partir de produtos
sintéticos, completamente dependentes de petróleo.
Fotos:
Filmes fotográficos
e películas de cinema também não sobreviveriam sem o óleo.
Você:Xampu, batom, esmalte e roupas (mesmo as
de algodão, já que há petróleo nos produtos usados no tingimento). Tudo isso
depende do óleo. Não é à toa que uma pessoa consome 22 barris de petróleo por
ano. Isso dá mais de 9,5 litros por dia. 70% é gasto em transporte (no
combustível do carro ou do ônibus), mas ainda sobra petróleo suficiente para
quase tudo que você está usando enquanto lê a Super.